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A arte contra a asfixia

A arte contra a asfixia

A arte, tão crucificada pela roda dentada da ignorância, tem sido o abraço de quentura no isolamento. As lives são uma espécie de âncora da empatia oferecida por artistas e inspiração para qualquer frequentador das redes sociais seguir o exemplo. Os artistas, uma das classes mais atingidas pela pandemia, estendem a mão da poesia e entram em nossas cavernas. Gritos de socorro silenciam na escuridão quando vozes cantam, poemas escorrem das bocas, instrumentos enchem de notas o ar e o humor se esparrama em sinal de saúde. É a arte contra a asfixia. 

E respira-se em meio à asfixia sem tréguas. Porque George Floyd não resistiu à asfixia do racismo estadunidense como João Pedro e Miguel, vítimas da truculência brasileira para lidar com pretos e pobres, esses inclassificáveis aos olhos da turba do berço esplêndido verde-amarelo-não-me-toques. Se nos falta o ar, e ele anda escasso diante de tanto cala boca, Zebedeu, a arte nos recupera o fôlego, é o sopro de vida da Clarice, quando os números da tragédia tocam suas trombetas.

Mesmo que uns não queiram, os respiradores que a arte produz continuam seu trabalho, há vagas e leitos para os malucos da ideia, os doentes do peito e do coração que o Sampaio cantou, mais um entre as minhas invocações poéticas. A vacina para o vírus ainda não deu as caras; já os artistas oferecem a cura para o desalento, pros isolados que sofrem sob os saltos mortais da dor. Por eles, ainda respiramos. E enchemos de ar os pulmões da resistência.  

O Novo Normal
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